terça-feira, 29 de março de 2016

«Haec dies quam fecit Dominus: exsultemus et laetemur in ea»

 - «Este é o dia que o Senhor fez; exultemos e alegremo-nos nele». Aleluia!
"Essa noite será de vigia para todos os filhos de Israel, de geração em geração, em honra do Senhor”.
Celebramos nesta noite santa a Vigília Pascal, a primeira, melhor, "a mãe" de todas as vigílias do ano litúrgico. Nela, como canta repetidamente o Precónio, volta-se a percorrer o caminho da humanidade, desde a criação até o acontecimento culminante da salvação, que é a morte e a ressurreição de Cristo.
 A luz d'Aquele que "ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram" torna "clara como o dia" esta noite memorável, considerada justamente o "coração" do ano litúrgico. Nesta noite, a Igreja inteira vigia e torna a percorrer, meditando, as etapas significativas da intervenção salvífica de Deus no universo.

"Uma noite de vigia em honra do Senhor". Duplo é o significado da solene Vigília Pascal, tão rica de símbolos acompanhados por uma extraordinária abundância de textos bíblicos. Por um lado ela é memória orante das mirabilia Dei [maravilhas de Deus], ao relembrar as páginas capitais da Sagrada Escritura, desde a criação ao sacrifício de Isaac, à passagem do Mar Vermelho, à promessa da nova Aliança.


 Por outro lado, esta sugestiva vigília é expectativa confiante no pleno cumprimento das antigas promessas. A lembrança da obra de Deus culmina na ressurreição de Cristo e se projeta no acontecimento escatológico da parusia. O que Deus prometeu se cumpre em Jesus, a nova Aliança!

Vislumbramos assim, nesta noite pascal, o amanhecer do dia que não tem mais ocaso, o dia de Cristo ressuscitado, que inaugura a vida nova, "os novos céus e a nova terra".
Singular Vigília duma noite singular. Mãe de todas as Vigílias, é a vigília durante a qual a Igreja inteira permanece à espera junto do túmulo do Messias, sacrificado na Cruz. A Igreja espera e reza, ouvindo novamente as Escrituras que repercorrem toda a história da salvação.
Nesta noite, porém, não são as trevas que predominam, mas o fulgor duma luz inesperada, que irrompe com o anúncio desconcertante da ressurreição do Senhor. A espera e a oração tornam-se então um cântico de júbilo: «Exultet iam angelica turba caelorum...» - «Exulte de alegria a multidão dos Anjos...».
 Inverte-se completamente a perspectiva da história: a morte cede a passagem à vida. Vida que não morrerá mais. Daqui a pouco cantaremos, no Prefácio, que Cristo «morrendo destruiu a morte e ressuscitando restaurou a vida». Eis a verdade que proclamamos por palavras, e sobretudo com a nossa existência. Aquele que as mulheres julgavam morto, está vivo. A experiência delas torna-se a nossa.

Ó Vigília recheada de esperança, que exprimes em plenitude o sentido do mistério! Ó Vigília rica de símbolos, que manifestas o coração mesmo da nossa existência cristã! Nesta noite, tudo se resume prodigiosamente num nome: o nome de Cristo ressuscitado.
Ó Cristo, como não agradecer-Vos pelo dom inefável que nos concedeis nesta noite? O mistério da vossa morte e ressurreição transvasa-se para a água batismal, que acolhe o homem antigo e carnal e purifica-o conferindo-lhe a própria juventude divina. Daqui a pouco, seremos imersos no vosso mistério de morte e ressurreição, ao renovar as promessas batismais.
Desde os seus inícios, a comunidade cristã situou a celebração do Batismo no contexto da Vigília Pascal. Também aqui, nesta noite, deveríamos ter catecúmenos, que mergulhados com Jesus na sua morte, com Ele ressuscitam para a vida imortal. Deste modo renova-se o prodígio do misterioso renascimento espiritual, atuado pelo Espírito Santo, que incorpora os neo-batizados no povo da nova e definitiva Aliança sancionada pela morte e ressurreição de Cristo.



Graças ao Batismo passamos a fazer parte da Igreja, que é um grande povo peregrino, sem limites de raça, língua e cultura; um povo chamado à fé a partir de Abraão e destinado a tornar-se uma bênção no meio de todas as nações da terra. Sejamos pois, fiéis Àquele que nos escolheu e confiemos-Lhe, com generoso empenho, toda a nossa existência.
Ainda que não tenhamos o batismo, a liturgia convida a todos nós aqui presentes a renovar as promessas do nosso Batismo. A nós o Senhor pede para Lhe renovar a expressão da nossa plena docilidade e total dedicação ao serviço do seu Evangelho.
Caríssimos Irmãos e Irmãs! Se às vezes esta missão vos aparecer difícil, recordai as palavras do Ressuscitado: "Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo" (Mt 28,20). Assim, na certeza da sua presença, não temereis qualquer dificuldade nem obstáculo. A sua Palavra vos iluminará; o seu Corpo e o seu Sangue servirão de alimento e amparo no caminho quotidiano para a eternidade.

Ao lado de cada um de vós permanecerá sempre Maria, a Mãe e Serva, Virgem do orvalho matutino que a cada novo dia experimentamos, como esteve presente entre os Apóstolos amedrontados e desconcertados na hora da prova. E, com a sua fé, Ela vos indicará, para além da noite do mundo, a aurora gloriosa da ressurreição. Amém.

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